Análises

As cidades podem fazer muito mais para reduzir alagamentos

Em lugar de canalizar córregos, como no programa anunciado pela Prefeitura de SP, seria benéfica uma mudança de paradigma, com a adoção de Soluções baseadas na Natureza capazes de trazer uma ampla gama de benefícios para o cidadão

A Prefeitura de São Paulo anunciou um amplo programa de investimentos para canalizar 57 córregos do município até o final de 2024. O motivo é nobre: reduzir os impactos das chuvas em áreas urbanizadas. Considerado o maior programa de canalização de córregos já realizado até hoje na capital, com aporte de R$ 630 milhões, o plano promete uma série de benefícios para a população. Mas será que as obras em curso são, realmente, a melhor escolha para a cidade?

Nosso imaginário ainda é dominado pela necessidade de investimento em grandes obras de engenharia convencional para solucionar os problemas urbanos. Contudo, foram esses projetos que potencializaram as vulnerabilidades por tentarem controlar os processos e fluxos naturais, com impermeabilização do solo e canalização dos cursos d’água. Em contraponto a essa lógica, projetos de Soluções baseadas na Natureza (SbN) implantados em diversas cidades do mundo têm se mostrado mais eficazes na mitigação de inundações, como também economicamente mais vantajosos e com melhoria na qualidade de vida e bem-estar dos moradores.

As experiências internacionais mostram que intervenções que respeitam os processos e fluxos naturais podem trazer uma ampla gama de benefícios para o cidadão, melhorando também o meio ambiente. São ações para proteger, conservar, regenerar, usar de forma sustentável e gerir ecossistemas terrestres, de água doce, costeiros e marinhos naturais ou modificados, abordando desafios sociais, econômicos e ambientais de forma eficaz e adaptativa, ao mesmo tempo em que proporcionam bem-estar humano, serviços ecossistêmicos, resiliência e aumento da biodiversidade.

Nesse contexto, em lugar de canalizar córregos, impondo-lhes margens rígidas, técnica que já se mostrou inócua em diversas situações, seria muito mais benéfica a mudança de paradigma, com a criação de áreas naturais (SbN) para amortecimento do escoamento superficial, com o aumento da capacidade de detenção, retenção e infiltração das águas pluviais. Os cursos d’água podem – e devem – ser requalificados e “renaturalizados” sempre que possível. 

A plataforma digital colaborativa Network Nature, por exemplo, já reúne 560 casos de projetos inovadores de SbN para desafios de grandes municípios nos cinco continentes, sendo 19 deles no Brasil. Com uma base de dados que possui mais de 1.000 casos, o Urban Nature Atlas é outra fonte de informação com iniciativas inspiradoras de SbN, cuja definição é reconhecida pela Assembleia da ONU para o Ambiente. Há, ainda, o projeto Reconect, da União Europeia, que apresenta casos de SbN consolidados e em desenvolvimento em todo o mundo.

Existem muitas evidências de que a adoção de SbN realmente traz benefícios múltiplos. Dentre os serviços ecossistêmicos oferecidos, além da proteção e do aumento da biodiversidade nas cidades, podem ser observadas a melhoria da capacidade de manejo de águas das chuvas no local, evitando e mitigando impactos mais severos, como inundações, cheias e alagamentos.

Além disso, as SbN contribuem para a saúde das pessoas e dos ecossistemas locais, melhoram a qualidade do ar, da água e do solo, além de amenizar a temperatura urbana, com a mitigação do “efeito ilha de calor”. Com a crise climática, sabemos que esses eventos se tornam cada vez mais intensos e frequentes, causando prejuízos materiais, humanos e em infraestruturas.

Um ponto positivo do plano anunciado pelos gestores da capital paulista é a transformação dos leitos dos córregos em parques lineares. Isso representa uma oportunidade ímpar para adotar infraestrutura natural (uma SbN) em áreas multifuncionais, com a incorporação de espaços verdes de lazer, atividades físicas e recreativas para todos os moradores. Projetos inovadores que oferecem inúmeras funções no mesmo lugar, também proporcionam melhor qualidade de vida, promovem coesão social e conectam as pessoas com a natureza em meio urbano.

O conceito de SbN surgiu apenas no final dos anos 2000, mas sua aplicação no Brasil tem projetos consolidados desde o século passado. Um grande exemplo, com mais de 50 anos de implementação, é o Parque Barigui, inaugurado em 1972, no centro da cidade de Curitiba. É um projeto multifuncional pioneiro, que visou controlar as inundações causadas por chuvas mais intensas com o alargamento das margens vegetadas do rio de mesmo nome, criando um enorme lago (bacia de retenção). O parque tem rica biodiversidade, diversas amenidades que a população usufrui o ano todo, além de amenizar o calor urbano.

É urgente que as autoridades municipais considerem a adoção de SbN em seu planejamento e execução de projetos principalmente relacionados aos rios e córregos urbanos, em macro e microdrenagem. Ao fazer isso, a cidade de São Paulo pode se tornar um exemplo de inovação sustentável e colaborar para a construção de um futuro mais resiliente e saudável para seus habitantes, favorecendo a natureza e a biodiversidade urbana, também com impactos positivos para a economia.

Oportunidades como esta atendem às necessidades imediatas da cidade, transformando áreas cinza e impermeáveis em locais cheios de vida, amenidades, com foco nas pessoas. São legados duradouros para as gerações futuras. Unamos esforços para criar uma São Paulo que floresça em harmonia com a natureza.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site bet que paga por cadastro. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Daniela Rizzi

    Especialista sênior em Soluções Baseadas na Natureza e Biodiversidade no ICLEI Europa e possui doutorado em planejamento paisagístico pela Universidade Técnica de Munique

  • Cecília Herzog

    Paisagista, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professora e pesquisadora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio);

  • Wilson Cabral de Sousa Junior

    Professor e pesquisador do Núcleo de Estudos em Infraestrutura, Ambiente e Sustentabilidade (NINFA) do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

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